O calor só se torna um problema de saúde quando um termómetro bate um recorde? Não. Pode agravar uma doença, tornar perigoso um trabalho ou fragilizar um estabelecimento de saúde. O relatório mundial de 2026 do Lancet Countdown, apresentado a 28 de outubro, apela a que as alterações climáticas sejam tratadas como uma emergência sanitária mundial. A questão central é concreta: as proteções estão a avançar suficientemente depressa face aos riscos?
A resposta dos investigadores é negativa, embora reconheçam benefícios já alcançados. Para compreender este alerta, é preciso distinguir três níveis: os efeitos medidos, os meios de proteção e o reconhecimento institucional que os autores reivindicam. Um apelo científico não constitui, por si só, uma nova decisão da Organização Mundial da Saúde.
Um painel de indicadores, não uma temperatura única
A apresentação do relatório Lancet Countdown 2026 descreve um acompanhamento baseado em 54 indicadores. Estes relacionam a evolução do clima com a saúde e as respostas dadas. A vantagem desta abordagem é analisar em conjunto áreas frequentemente debatidas em separado: exposição, vulnerabilidade, organização dos cuidados de saúde e políticas públicas.
Cada indicador responde a uma pergunta definida. Tem um período, um território e um método. Por isso, um aumento da mortalidade relacionada com o calor não se interpreta como uma medição da temperatura; uma despesa em energia limpa não mede diretamente a proteção de uma pessoa vulnerável. Compará-los ajuda a avaliar uma trajetória, desde que não sejam confundidos.
Os autores constatam que há progressos, nomeadamente na energia limpa e na preparação dos sistemas de saúde, mas que estes não compensam os danos. Isto permite evitar duas leituras demasiado simplistas: afirmar que nada funciona ou considerar que algumas melhorias bastam para resolver o problema.
O que significa o número da mortalidade
Na sua análise publicada a 28 de outubro, a OMS refere um aumento de cerca de 36 % na média anual de mortes relacionadas com o calor no período posterior ao Acordo de Paris, em comparação com a década anterior. Cita também uma estimativa de 710 000 mortes relacionadas com o calor em todo o mundo em 2023.
São duas comparações diferentes: uma evolução entre períodos e uma estimativa para um ano. O segundo número não é o balanço do verão de 2026 nem o de um único país. Apresentar estes valores de referência sem as respetivas datas faria perder uma parte essencial da informação.
A OMS transmite aqui os resultados do Lancet Countdown, com o qual colabora: não se trata de uma segunda contagem independente. As estimativas de mortalidade permitem documentar um efeito coletivo, mas não constituem uma lista de mortes atribuídas individualmente. Também não indicam que todos os habitantes estejam sujeitos ao mesmo risco.
Porque é que duas pessoas não sofrem o mesmo com o calor
A ficha da OMS sobre o calor e a saúde explica que o organismo tem de dissipar o calor que produz e recebe. A temperatura, a humidade, a circulação do ar e o vestuário podem dificultar esse equilíbrio. O esforço necessário pode, nomeadamente, sobrecarregar o coração e os rins e agravar doenças preexistentes.
A exposição conta tanto como a previsão meteorológica. O trabalho físico ao ar livre, uma casa que sobreaquece e o acesso a um local fresco criam situações diferentes. A idade, o estado de saúde e as condições sociais também são fatores relevantes. A duração do episódio, incluindo as noites quentes, acrescenta uma dimensão que a temperatura máxima da tarde, por si só, não resume.
Esta diferença explica o interesse de uma política direcionada. Informar toda a população é útil; identificar quem não consegue proteger-se facilmente responde a outra necessidade. Uma recomendação geral não garante automaticamente uma casa mais fresca, uma pausa no trabalho ou transporte para um local adequado.
Reduzir o perigo e a exposição
A mitigação designa as ações que limitam as alterações climáticas, nomeadamente através da redução das emissões. A adaptação organiza a proteção face aos efeitos presentes ou esperados. As duas abordagens não se substituem: uma atua sobre a evolução do perigo, a outra sobre a forma como as pessoas e os serviços lhe fazem face.
Um exemplo hipotético ajuda a compreender a diferença. Melhorar a proteção solar de um edifício pode reduzir o calor sentido pelos seus ocupantes; não elimina a tendência climática mundial. Inversamente, uma redução das emissões a longo prazo não dispensa a preparação de um estabelecimento para o próximo episódio de calor. São decisões complementares, com prazos e responsáveis diferentes.
A qualidade de uma resposta avalia-se, assim, pela sua aplicação. Um alerta é uma informação; a sua utilidade depende das ações que desencadeia. Um plano pode especificar quem intervém, com que meios e junto de que pessoas. Sem esta aplicação prática, anunciar que se está preparado não prova que a proteção chega a quem dela precisa.
Cuidados de saúde que têm de continuar acessíveis
O calor também afeta o funcionamento das infraestruturas. A OMS salienta que os episódios extremos podem perturbar a eletricidade, os transportes e os serviços de saúde. Por isso, um sistema tem de conseguir responder à procura e, ao mesmo tempo, manter-se operacional.
Esta dupla exigência muda a forma de pensar a resiliência. Não basta contar camas ou publicar recomendações: é preciso também ter em conta as condições em que as equipas trabalham, os equipamentos funcionam e os doentes conseguem aceder aos cuidados de saúde. Estas dimensões ligam a saúde ao ordenamento do território, à energia e aos serviços públicos.
O relatório defende que a saúde seja colocada no centro das decisões climáticas. Isto fornece um critério para analisar os futuros anúncios: que pessoas ficarão mais protegidas, contra que risco, através de que medida e com que acompanhamento? Uma despesa, um compromisso e um resultado em matéria de saúde são três informações úteis, mas distintas.
Um apelo político que não deve ser confundido com um estatuto oficial
Os autores pedem que as alterações climáticas sejam reconhecidas e tratadas como uma emergência sanitária mundial. Paralelamente, a OMS descreve mecanismos já existentes de vigilância, preparação e resposta. Seria, por isso, incorreto transformar a publicação do relatório numa declaração automática de um novo estatuto jurídico mundial.
A importância deste apelo reside sobretudo na exigência de coordenação. Os efeitos na saúde não se limitam à gestão de uma vaga de calor, e os benefícios de uma ação têm de ser acompanhados ao longo do tempo. O leitor pode reter esta ideia: falar do clima em termos de saúde obriga a analisar as proteções efetivas, o acesso às mesmas e os seus limites, para além do simples valor da temperatura.
Fotografia ilustrativa: um homem refresca-se numa fonte. A imagem não documenta um acontecimento estudado no relatório.






