O excedente externo pode aumentar mesmo quando as exportações de bens recuam. É o que mostram os resultados provisórios do primeiro semestre de 2026, publicados online pelo STATEC em 19 de outubro. Em conjunto com o Banco Central do Luxemburgo, o instituto apura um excedente de 514 milhões de euros na conta corrente, contra um défice de 69 milhões um ano antes.
Este regresso a terreno positivo não traduz uma melhoria uniforme da atividade. Para perceber o que está por detrás, é preciso analisar separadamente os bens, os serviços e os rendimentos trocados com o resto do mundo.
Menos importações, saldo mais elevado
No caso dos bens, as exportações diminuem 1 % e as importações, 4 %. Ainda assim, o excedente ascende a 1,036 mil milhões de euros. O saldo mede uma diferença: pode melhorar quando as compras ao estrangeiro diminuem mais do que as vendas.
Seria, por isso, precipitado interpretar este valor como um indicador de aumento das encomendas aos produtores luxemburgueses. Para avaliar a sua atividade, seria também necessário conhecer as quantidades produzidas, os preços e os mercados de destino. Os dados também não permitem atribuir a diminuição das importações a uma causa única, como um consumo mais fraco ou uma mudança de fornecedores.
Bens que não têm necessariamente de atravessar a fronteira
A balança de pagamentos regista as transações entre residentes e não residentes. No caso dos bens, o que conta é a mudança de proprietário: nem sempre é necessário que atravessem fisicamente o Luxemburgo.
A metodologia do STATEC descreve assim o comércio internacional: uma empresa residente compra mercadorias a um não residente e depois revende-as a outro, sem as fazer entrar no território. Estas operações são registadas na rubrica dos bens da balança de pagamentos, numa base líquida. Não são registadas da mesma forma nas estatísticas baseadas na circulação física de mercadorias.
Por isso, é sempre necessário saber a que âmbito se refere um valor de exportações. Comparar dois quadros que usam ambos a palavra «bens» sem analisar a metodologia pode dar a impressão de uma contradição que, na realidade, decorre daquilo que cada um contabiliza.
Os serviços sustentam o conjunto
O saldo dos serviços ascende a 14,227 mil milhões de euros, mais 18,5 %. O comunicado associa, nomeadamente, o crescimento dos serviços financeiros aos ativos geridos pelos fundos: parte das comissões cobradas aos investidores estrangeiros depende do valor desses ativos.
Este montante não corresponde ao saldo final da conta corrente. Este inclui também os rendimentos primários e secundários, cujos saldos são negativos. Considerar apenas a rubrica dos serviços daria, por isso, uma imagem incompleta das relações económicas externas.
Partir dos valores revistos
A publicação reduz também os excedentes anuais anteriormente anunciados: o de 2024 passa de 6,2 para 0,9 mil milhões de euros; o de 2025, de 4,3 para 0,6 mil milhões. A correção incide sobretudo nos serviços.
Estas revisões obrigam a comparar valores provenientes da mesma versão estatística. O primeiro semestre de 2026 não é comparável a um ano inteiro, nem a um total antigo que tenha permanecido num artigo ou num gráfico. A conclusão a retirar é mais precisa do que um veredicto geral sobre a economia: a conta corrente voltou a terreno positivo no primeiro semestre, com evoluções distintas nas suas componentes.
Fontes
- BCL e STATEC: resultados do primeiro semestre de 2026, página datada de 19 de outubro de 2026.
- Comunicado PDF associado, datado de 9 de outubro de 2026. Os dois suportes apresentam os mesmos resultados aqui citados.
- STATEC: descrição metodológica da balança de pagamentos, nomeadamente páginas 2 e 6–7; documento metodológico antigo ligado pela publicação atual.
- Fotografia: GilPe, Banco Central do Luxemburgo, arquivo de 2018.
- Licença da fotografia e do recorte: CC BY-SA 3.0.
Fontes consultadas em 20 de outubro de 2026.






