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Na Gronelândia, um lago sob o gelo atrasa a saída da água de degelo

Sob Flade Isblink, um reservatório invisível enche-se no verão e esvazia-se sobretudo no outono. Os satélites revelam por que razão a data do degelo não basta para prever quando a água chegará a jusante.

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Vista aérea do glaciar Heimdal e dos relevos nevados do leste da Gronelândia, fotografia ilustrativa.
Fonte e licença da imagem
Antony-22 — Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0

Parte da água produzida à superfície de Flade Isblink não segue imediatamente o seu percurso até aos lagos e fiordes. Fica retida sob o gelo. Um estudo publicado a 3 de julho de 2026 na Scientific Reports, apresentado pela Agência Espacial Europeia a 15 de outubro, descreve um lago subglacial cujo enchimento e esvaziamento alteram o calendário dos fluxos de água.

O resultado é relevante para os modelos hidrológicos por uma razão muito concreta: saber quanta água resulta do degelo não permite ainda saber quando chegará a jusante. Pelo meio, um reservatório oculto pode reter uma parte importante do escoamento. Isso não significa que o degelo pare, nem que essa água desapareça do balanço.

Um reservatório local, não uma reserva à escala da Gronelândia

O lago, designado Lake B pelos investigadores, situa-se sob o setor ocidental da calote de Flade Isblink, no nordeste da Gronelândia. Esta calote independente deve ser distinguida do conjunto do manto de gelo da Gronelândia. A bacia hidrográfica do lago é o território que contribui para o seu abastecimento; é a esse perímetro que dizem respeito as proporções indicadas.

Segundo a apresentação da ESA, o armazenamento pode atingir cerca de 0,37 mil milhões de metros cúbicos, com uma incerteza de 0,11 mil milhões. A estimativa corresponde a um máximo de 63% do escoamento anual da bacia, com uma incerteza de 23 pontos percentuais. A margem é, portanto, ampla. Dizer simplesmente «63% da água de degelo da Gronelândia» alteraria tanto a escala como o sentido da descoberta.

O relevo rochoso subjacente forma uma depressão onde a água se pode acumular. A sua posição, descrita como estando até cerca de 600 metros abaixo do nível do mar, não corresponde a uma medição da profundidade da água do lago. Trata-se da altitude do relevo soterrado, um indicador diferente.

Observar o movimento do gelo para compreender a água

Os satélites utilizados não fotografam diretamente este lago através da sua cobertura de gelo. A investigação baseia-se nas alterações da superfície que o cobre. Quando se acumula água por baixo, essa superfície eleva-se; quando a água escoa, baixa.

Os investigadores cruzaram vários tipos de medições referentes ao período entre outubro de 2018 e dezembro de 2024. O ICESat-2 fornece dados de altitude obtidos por laser. As observações de radar do Sentinel-1 permitem detetar deslocações; os modelos de relevo do ArcticDEM complementam a série. Um modelo climático regional fornece uma estimativa da água produzida na bacia.

A apresentação da missão ICESat-2 pela NASA ajuda a compreender o que este instrumento mede: lançado em setembro de 2018, acompanha, nomeadamente, a altitude das superfícies geladas. São as variações repetidas, comparadas com as outras observações, que permitem interpretar o fenómeno. Uma única imagem da paisagem não permitiria reconstituir este funcionamento.

A ESA refere uma elevação de aproximadamente dez metros durante o enchimento e descidas que podem chegar aos 34 centímetros por dia durante os esvaziamentos. Estes valores descrevem o deslocamento da superfície acima do reservatório, não um adelgaçamento uniforme de toda a calote.

Degelo no verão, saída da água no outono

O ciclo observado desenrola-se, em geral, em duas fases. A água acumula-se durante a estação do degelo; o esvaziamento ocorre sobretudo em setembro e outubro. Os investigadores identificam assim um desfasamento de dois a três meses entre o pico do degelo à superfície e as entradas de água a jusante.

A série inclui uma exceção relevante: não foi observado qualquer esvaziamento em 2022, ano em que as taxas de degelo foram as mais baixas do período estudado. Os autores admitem que poderá existir um limiar de abastecimento necessário para desencadear o escoamento. Esta interpretação continua a ser uma hipótese baseada nas observações, e não uma regra já demonstrada para todos os lagos subglaciais.

O lago Romer Sø, situado a jusante, também apresenta variações de volume desfasadas no tempo. A comparação com os esvaziamentos de Lake B sugere uma ligação hidrológica. É esta coerência entre as séries, e não uma imagem espetacular, que confere interesse ao estudo.

O que isto muda nos modelos

Um modelo que fizesse chegar imediatamente a jusante toda a água do degelo poderia não captar parte deste ritmo sazonal. O armazenamento subglacial leva, por isso, a distinguir a produção, a retenção temporária e a libertação da água. Dois anos com quantidades de degelo comparáveis não se traduziriam necessariamente num calendário idêntico das entradas de água.

Para os lagos e os fiordes, o momento em que a água doce chega pode ser tão importante como o seu volume em determinadas interações físicas e ecológicas. A ESA refere, nomeadamente, a estratificação das águas e a produção primária como áreas potencialmente afetadas. O estudo não demonstra, contudo, um efeito específico numa população animal ou na produtividade de um fiorde.

O alcance do trabalho é mais delimitado e mais sólido: documentar um mecanismo oculto, medi-lo ao longo de vários anos e mostrar por que merece ser incluído nos cálculos. Um reservatório sazonal pode atrasar a água; não é uma solução para o aquecimento global.

Fotografia ilustrativa: glaciar Heimdal, no leste da Gronelândia, em 2018. Não representa o local de Lake B.

Fontes

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