Em Berlim, em 1932, Folker Kuntz trabalha em publicidade e divide o seu tempo entre amores, amizades e saídas à noite. Em «L’Enfance des ruines», Pascal Rabaté situa este quotidiano animado à beira de uma rutura política. A banda desenhada adapta «Vers l’abîme», um romance de Erich Kästner: o seu ponto de partida são personagens apanhadas numa época que se desregula, sem que a narrativa se apresente como uma obra de história.
Um quotidiano berlinense à beira da rutura
A apresentação do editor coloca Folker numa vida de «futilidades», rodeado, entre outros, pela vizinha, bailarina de cabaré, e pela irmã, artista. A chegada de alguém novo vem alterar este equilíbrio: Rudy Ganz, um jovem cuja vida Folker salvou e que começa a conhecer. O resumo da Radio France especifica que Rudy escapa ao acidente, mas não às suas próprias dificuldades.
Este ponto de partida confere à narrativa uma escala intimista. A ascensão do nazismo não se reduz a uma sucessão de acontecimentos políticos observados à distância: atravessa as relações e os lugares frequentados pelas personagens. A questão que se coloca ao leitor é, então, menos «o que vai acontecer?» do que «o que ainda conseguem ver, ou querer ver, aqueles que continuam a viver como antes?». É uma pista sugerida pela apresentação editorial, e não uma conclusão a impor ao livro.
Lugares de convívio, tensões que se instalam
O resumo do editor leva as personagens a conversas no cabaré, festas privadas do NSDAP, o partido nazi, e a um atelier de pintor, até chegar a uma exposição colonial. Estes lugares não são intercambiáveis: desenham diferentes espaços de encontro e tornam visível a coexistência entre a vida social quotidiana e sinais de rutura política ou de segregação.
A irmã de Folker é artista; o seu amante fugiu à segregação racial nos Estados Unidos. Este pormenor, tal como é relatado na apresentação, introduz outra forma de violência histórica no círculo das personagens. Alarga o enquadramento sem, no entanto, transformar a narrativa num panorama exaustivo das perseguições. O título, «L’Enfance des ruines», situa-se assim entre duas temporalidades: a de um mundo ainda animado e a de um desmoronamento que já se desenha.
Estes elementos permitem situar a proposta, mas não bastam para avaliar a realização gráfica de Rabaté, a composição das suas pranchas ou o ritmo da banda desenhada. O interesse aqui documentado reside no enquadramento narrativo e na sua origem literária: a banda desenhada retoma um romance de Kästner; não é apresentada como uma investigação histórica autónoma.
De Kästner a Rabaté: uma adaptação, não um simples resumo
A Radio France apresenta «Vers l’abîme» como o texto que levou Pascal Rabaté a esta adaptação. A passagem de um romance à banda desenhada implica uma mudança de forma, mas as informações disponíveis não permitem descrever com precisão as transformações introduzidas na narrativa. É, por isso, mais rigoroso ficar pelo gesto anunciado — transpor a história de Kästner para a banda desenhada — do que atribuir a Rabaté escolhas narrativas ou gráficas que não estão documentadas.
Para entrar no livro, o leitor pode ter presente esta tensão: as personagens prosseguem as suas histórias pessoais, enquanto os lugares que frequentam se carregam de significados políticos. Esta tensão oferece um fio condutor de leitura sem revelar o desenlace nem reduzir a obra a uma lição sobre a ascensão do nazismo.
As edições Rue de Sèvres indicam que a publicação está prevista para 23 de setembro de 2026. A edição normal tem 176 páginas; está anunciada outra edição com 192 páginas. Esta diferença no número de páginas aconselha a confirmar o formato disponibilizado pelo livreiro. O editor indica o preço de 27 euros para a edição normal e de 30 euros para a outra edição. «L’Enfance des ruines» recebeu também o Prix RTL de la BD do mês de outubro de 2026, segundo a página do editor.
Referências
- Éditions Rue de Sèvres, «L’Enfance des ruines»
- Radio France, «Pascal Rabaté signe “L’enfance des ruines”, dans la chute de la République de Weimar»
Alexanderplatz e as obras do Berolinahaus em 1931, o ano em que decorre a narrativa de Rabaté. Fotografia de arquivo e ilustração.
Crédito: Fotógrafo não identificado — Wikimedia Commons — Domínio público.






